As autoridades desarticulam o QUARTO PODER para que os outros três possam fazer o que querem e bem entendem.
E tome LOBBY, JOGOS DE INTERESSES, trocas de favores e acordos por trás dos panos.
Temos um Legislativo se lixando para o opinião pública...
um Judiciário "mutilando" os formadores de opinião pública...
e um Executivo que se omite, mas que ainda está na boca da "opinião pública"... vai entender...

ATENÇÃO PARA A ABERRAÇÃO:
JORNALISTAS SEM FORMAÇÃO
Gabriela Rodrigues
Derrubaram, o nosso diploma, e com ele, a luta de décadas por num jornalismo responsável e de qualidade. A própria sociedade já disse, inclusive em várias pesquisas, que jornalista só é jornalista com diploma. Só a nossa Suprema Corte não entendeu isso.
Os ministros do STF acolheram o ao Recurso Extraordinário RE 511961, interposto pelo Sindicato das Empresas de Rádio e Televisão de São Paulo e pelo Ministério Público Federal (MPF) contra uma decisão do Tribunal Regional Federal da 3ª Região que tinha afirmado a necessidade do diploma. A cúpula dos chamados “operadores do direito brasileiro” entendeu que jornalista, cozinheiro e costureiro são tudo a mesma coisa: basta vocação e um pouquinho de interesse pra aprender o ofício. Portanto, pra que diploma? A imprensa não é importante mesmo,... não é ilustre presidente, ministro Gilmar Mendes?
O mais frustrante, para não falar em revoltante, é entender que da bagagem jurídica dos comandantes da Suprema Corte venha o entendimento de que imprensa responsável não precisa de jornalista bacharelado. A técnica e a ética, portanto, não vem dos bancos da universidade, se assim entendermos que o diploma é dispensável. Então, se retiramos técnica e ética, o que sobra para o jornalismo brasileiro? Talvez a incompetência, o amadorismo, o despreparo e o retrato de uma realidade veiculada sem nenhum senso de responsabilidade. Ou seja, o que era profissão deixa de ser jornalismo. Assim entenderam nossos ilustres ministros.
Ao justificar seu voto, o presidente do STF, ministro Gilmar Mendes, teve a sábia estupidez de comparar nossa profissão à cozinha, corte e costura.: "É fácil perceber que formação específica em curso não é meio idôneo suficiente para evitar eventuais riscos à coletividade ou danos a terceiros", afirmou Mendes em seu voto. Em sua argumentação, o presidente do STF fez alusão ao exercício profissional da culinária: "um excelente chefe de cozinha poderá ser formado numa faculdade de culinária, o que não legitima estarmos a exigir que toda e qualquer refeição seja feita por profissional registrado mediante diploma de curso superior nessa área". Dá para entender? Agora eu pergunto: a notícia tem a mesma função social que a de uma refeição? É para rir, não é? Não, prefiro dizer que é para chorar... O pior é acreditar que um argumento desses tenha partido do alto comando do Judiciário brasileiro. Mendes não percebe que o jornalismo é uma atividade profissional complexa, essencial para a sociedade, e seu exercício exige responsabilidade social, compromisso ético e preparação teórica e técnica de qualidade. Mendes não percebe que a imprensa é capaz de erguer ou derrubar sua imagem. E depois dessa "ilustre argumentação", acendeu a fúria da categoria.
O “ministro-aberração” também argumentou que " a salvaguarda das salvaguardas da sociedade é não restringir nada. O jornalismo e a liberdade de expressão, portanto, são atividades imbricadas por sua própria natureza e não podem ser pensadas e tratadas de forma separada", afirmou Mendes. Ok senhor ministro. Vou reunir alguns livros de direito, código civil, penal, trabalhista ou seja lá o que for, a nossa Constituição e colocar uma placa em minha casa: “Advocacia”. Afinal, defender ou acusar alguém é ou não é liberdade de expressão? Alguém vai me impedir? E então “senhores doutores”, para que o diploma de bacharel em direito, não é? Aliás, o jornalismo sem formação também pode abrir muitas feridas... as mesmas que um médico não diplomado é incapaz de curar. Só que as nossas, são ainda piores e mais graves: são as feridas do tecido social. Nenhuma imprensa pode curá-las, a não ser aquela lapidada pela formação acadêmica, pelo estudo e pelo esforço diário de quem alia teoria e prática para entendê-las. Pode parecer clichê, é é... mas ainda somos o quarto poder.
Bem, e quem sou eu para questionar a decisão da maior instância do Judiciário brasileiro? Uma repórter recém formada, em um Estado de estreito mercado jornalístico? Sou apenas mais uma jornalista indignada. E não me calo. Me formei no ano passado, batalhei bastante para tal, escrevi um pequeno guia para estudantes de jornalismo, e agora esbarro em mais uma dificuldade para publicá-lo: o interesse pela teoria aliada à prática, para quem quer realmente seguir a profissão, mas com formação. A bagagem acadêmica não será mais a mesma: talvez seja apenas uma “opção”, e não mais uma obrigação.
Confesso que fiquei tão atordoada com o anúncio do Supremo que ainda não consigo entender direito como vai ser o jornalismo de agora em diante. É verdade que as entidades representativas de nossa categoria, como sindicatos, Fenaj e Associação Brasileira de Imprensa vão prosseguir com o movimento pela qualificação da formação em jornalismo, a luta pela democratização da comunicação, por atualizações da regulamentação profissional dos jornalistas e mesmo em defesa do diploma. Mas é fato também que, se antes as coisas eram muito difíceis, agora elas se tornaram bem piores.
Esta é uma decisão lamentável para a minha geração de jornalistas: os que agora chegam ao mercado, em meio a mil dificuldades, mas respirando com certo alívio por conseguirem um concorrido espaço nas redações.... Espaço este que ficará cada vez mais disputado. E o pior: por quem não tem formação....Também lamento pelos que lutaram desde os árduos anos de chumbo até hoje pela liberdade de imprensa com responsabilidade e qualidade de formação. E lamento mais ainda pelos que virão, pelos que agora estudam jornalismo, podendo se deparar com um mercado ainda mais saturado, concorrido e prostituído pelos interesses patronais das grandes empresas.
Com todo o respeito aos “vocacionados”. Mas sem formação, nunca entenderão o que é jornalismo.
'Quando a Justiça não age, já não é mais Justiça!'
Arcebispo Metropolitano aponta morosidade do Judiciário, corrupção no Legislativo e omissão do Executivo
Gabriela Rodrigues - Reportagem
Sandro Lima - fotografia
A participação de um representante da Igreja Católica em diversas negociações envolvendo Legislativo, Executivo e Judiciário tem gerado debates e repercutido em vários setores da população. O arcebispo metropolitano da capital, Dom Antônio Muniz, acumulou ao longo de suas experiências como "mediador" em acordos políticos, atuante em causas sócio-políticas e "ouvinte" de problemas da população, avaliações sobre a atuação das instituições. Mas, embora "perplexo" com escândalos de corrupção e interesses eleitoreiros, o religioso não deixa de crer nos poderes instituídos. "Se perdemos a confiança, perdemos o referencial", diz em entrevista exclusiva.
De onde parte a iniciativa de convidar um integrante da Igreja Católica para intervir em negociações nos poderes?
D. Antônio Muniz - Em nenhum momento intervi nas negociações em uma instituição ou em algum dos poderes sem ser solicitado. Sou procurado pelas partes em questão. Geralmente, são sindicatos, servidores, representantes de poderes que pedem alguma intervenção. Quando estou presente, há uma dinâmica de escutar todas as partes e buscar um pacto, uma solução negociada.
Isso é uma alegria, pois vemos que vários segmentos da sociedade reconhecem este poder da Igreja de negociar.
A que o senhor atribui os convites para participar das negociações?
Muniz - As pessoas reconhecem que a Igreja é a instituição de maior credibilidade diante do povo. Pode-se também entender que há uma isenção. Não somos nenhum partido político; a Igreja Católica não se identifica com nenhuma ideologia. O caráter da Igreja na sociedade tem esse poder moral de isenção que pode apontar os acertos e falhas nos poderes e propor soluções.
O senhor pode citar casos onde a participação da Igreja gerou desfechos positivos?
Muniz -A Igreja tem sido procurada em vários momentos. Foi assim na famosa greve dos servidores da Assembleia Legislativa, na greve dos professores... Pudemos conversar na questão dos agentes penitenciários e dos servidores do Detran. Somos procurados em momentos mais críticos, e procuramos manter o diálogo. Geralmente, a interferência tem sido benéfica para as categorias mais frágeis. Nos colocamos do lado mais fragilizado.
Como o senhor vê a atuação dos três poderes em Alagoas?
Muniz -A sociedade tem reclamado da morosidade do Judiciário, da corrupção no Legislativo e da omissão do Executivo... Vejo com perplexidade e receio, e concordo com o que a população tem reclamado. Parece que há uma boa vontade das autoridades, obstruída por burocracia nas decisões e interesses políticos e econômicos, exteriores ao Estado. A distância entre a boa vontade no discurso e na prática é enorme, é evidente.
Mas o senhor acredita que isso acontece da mesma forma nos três poderes?
Muniz -Acontece porque há uma prática constante de não ouvir o povo, ou de só ouvi-lo em época de campanha eleitoral. A cultura das autoridades é de resolver tudo em gabinetes. As políticas públicas do Executivo são implantadas sem uma consulta das necessidades reais do povo. Copiam-se modelos de outros Estado, e não se tomam iniciativas viáveis enquadradas na nossa realidade. É o exemplo do "Território de Paz", implantado no Benedito Bentes. Foi uma atuação coletiva entre Ministério da Justiça e Estado... mas não foram ouvidos líderes comunitários, delegacias, conselhos tutelares nem moradores da região.
E qual seria a alternativa para aproximar os poderes da população e da Igreja, que tem esse poder de mediação?
Muniz -Temos 27 mil pessoas que participam da missa pela paz e trazem para a Igreja problemas de suas comunidades, que não chegam aos vereadores, ao Legislativo, às secretarias. Tentamos levar essas questões, mas parece que as autoridades não querem escutar os problemas do povo.
Por quê?
Muniz - Porque a cultura política é uma cultura viciada, não são funcionários do povo, mas funcionários de seus próprios interesses. É assim com deputados, vereadores, prefeitos, governo e até membros do Judiciário
“As políticas públicas do Executivo são
implantadas sem uma consulta das necessidades reais
do povo. Copiam-se modelos de outros Estado, e não se
tomam iniciativas viáveis enquadra-das na nossa
realidade”.
D. Antônio Muniz
Arcebispo Metropolitano de Maceió
O senhor falou que há "crise por cima de crise", agravadas pelos interesses eleitoreiros. Se as autoridades agem por interesses próprios, que ações podem reverter este quadro?
Muniz - Acredito que somente iniciativas a longo prazo podem resolver isso. O problema se agrava porque a sociedade reclama e permite que aconteça crise por cima de crise nas instituições. A sociedade civil organizada precisa se organizar, pressionando. Tem que transformar a indignação em ação. No dia em que o povo decidir manifestar-se em frente ao Palácio do Governo, acompanhar de perto as sessões da Assembleia e da Câmara, ele será ouvido. Mas muitos se calam e outros transformam essa indignação em vandalismo, violência, agressão. Só organizando essa indignação e canalizando de alguma forma, será possível mudar. Não é possível que a ficha, um dia, não caia.
Mas o senhor ainda crê nas instituições? Que poder o senhor observa como mais desacreditado?
Muniz - Já escutamos os barulhos de palanques sendo montados para a campanha eleitoral. O Executivo começa a cair de agora para beneficiar grupos e pessoas. É só ver as escolhas de secretários do governo e da Prefeitura, em função de benefícios futuros. O Legislativo, visceralmente corrompido, omite informações por conta de vários interesses, fere princípios e valores. E a Justiça...[pausa]. Bem, a Justiça, quando não age... já não é mais Justiça! O Judiciário esbarra em problemas com o cumprimento de seu dever, até mesmo no jogo de interesses na composição de seus membros. Mas, se deixarmos de acreditar nas instituições, perdemos o referencial. E se perdemos a confiança, o que vai ser de nós?
por Gabriela Rodrigues
Com este texto, continuo defendendo a necessidade do diploma de jornalista, iniciada no texto anterior, com base nos ensinamentos de Alberto Dines em O Papel do Jornal (1986), e finalizamos a série de artigos sobre o tema com "A informação ganha com a formação". Os artigos são parte do projeto acadêmico “Jornalismo de Bolso”, em parceria com a professora drª Magnólia Rejane, do curso de Comunicação Social da Universidade Federal de Alagoas. Vale a pena refletir e discutir sobre o tema, em pauta para julgamento no Supremo Tribunal Federal. Todos os artigos da série estão disponíveris neste blog.
Acompanhe a sequência dos textos abaixo, com mais detalhamentos sobre o tema.
Contribuição com sugestões e comentários são muito bem vindas! Abraços a todos!
· Talento sem compromisso gera aberrações: A fusão da ética com a técnica, indispensável ao exercício do jornalismo, só pode ser apreendida e assimilada num ambiente voltado “à procura do melhor e do ideal” (DINES, 1986, p.153). A busca da isenção e da qualidade é um exercício cotidiano e sensorial embasado e aperfeiçoado em reflexões com orientação apropriada. Há um componente “missionário” que os práticos do jornalismo, mesmo quando “geniais” e muito talentosos, jamais conseguiriam absorver devidamente no corre-corre dos fechamentos e diante das contingências do dia-a-dia. Na sala de aula, com o auxílio de professores responsáveis, podem ser criados os estímulos para que os ideais da profissão sejam perseguidos com naturalidade.
· O jornalismo não é ciência, mas uma técnica de comunicação combinada a uma filosofia e um comportamento social: na redação, no máximo, aprende-se a prática, sem o necessário “substrato conceitual” que lhe dá consistência, conteúdo e realidade.
· O jornalista diplomado luta pela profissão. O não diplomado luta pelo emprego. Isto significa que o não diplomado pode fazer qualquer asneira, que acabará voltando á sua profissão original. Age para manter o emprego. Já o diplomado, fatalmente, será mais idealista, consciencioso e produtivo... já que não lhe resta outra opção profissional, a não ser aquela para a qual se formou. Além do mais, há a questão da valorização: o não diplomado poderá aceitar qualquer salário e contrato de trabalho. Já o diplomado, tem compromissos com a categoria.
· A atividade jornalística é multidisciplinar. O jornalismo mescla conhecimentos de língua portuguesa, fotografia, arte, marketing, sociologia, antropologia e outras áreas. Como combinar conhecimentos senão numa universidade? Custa crer que as empresas jornalísticas, as maiores beneficiadas pela especialização multidisciplinar, estejam contra a escola que a possibilita.
· O diploma não é corporativo: a escola abre o mercado e o oxigena continuamente. Sem diploma, o acesso ao mercado se daria por nepotismo. De acordo com Dines (1986), enganam-se os professores de Ciência Política e Filosofia (a exemplo de Marilena Chauí) que, durante alguns anos, denunciaram o diploma de jornalista como “acionador de corporativismo”. Esses professores diriam a mesma coisa se fosse proposta a abertura da Ciência Política e da Filosofia para qualquer jovem talentoso?
Para Dines (1986), a escola de jornalismo é lamentável onde a imprensa é lamentável. Onde a imprensa tem nível e qualificação, é possível estabelecer uma inter-relação com a universidade, benéfica para ambos e para os jornalistas.
O problema, portanto, não é acabar com escolas de jornalismo, nem condená-las, mas pensar em possibilidades de melhorias, incentivando a formação do profissional e estabelecendo vínculos com o mercado de trabalho.
A Federação Nacional de Jornalistas – FENAJ estima que, de acordo com dados do Ministério da Educação, quase 400 cursos de jornalismo no Brasil formam cerca de sete a oito mil novos jornalistas todos os anos[1].
A informação ganha com a formação
Com a obrigatoriedade do diploma (que ainda provoca discussões em salas de aula e redações de todo o país), ganham os meios de comunicação e o público, que passam a receber informação com mais qualidade produzida por profissionais melhor informados e mais conscientes de seu papel, funções sociais e técnicas; sindicatos e instituições defensoras da atividade; a universidades e a própria profissão, que fica menos vulnerável ao charlatanismo e à irresponsabilidade de profissionais que possam alegar desconhecimento de normas técnicas ou éticas.
A formação acadêmica é fundamental, pois dá ao jornalista as condições necessárias para lidar de maneira responsável com a principal ferramenta da profissão: a informação. O suporte intelectual é fundamental não apenas por oferecer cultura e “ampliar” visões acerca de vários campos do conhecimento, mas, principalmente, por fornecer as noções éticas, técnicas e teóricas indispensável ao desempenho do jornalismo.
[1] Informação fornecida por Sérgio Murillo, presidente da Fenaj, em entrevista realizada por e-mail em 25/01/2008.
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